Composto em sua maioria por estudantes da Baixada Fluminense e da Zona Oeste, a Plural HQ é um coletivo de estudantes de Belas Artes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O coletivo surgiu a partir de uma proposta na matéria de História em Quadrinhos II, com o objetivo de proporcionar aos alunos a oportunidade de vivenciar uma produção real do mercado criativo. O professor Gabriel Billy, idealizador da Plural, falou ao Jornal Atual sobre como o projeto nasceu e foi desenvolvido pelos estudantes após a proposta na sala de aula.
“Antes de ser professor, fui aluno do curso e tive um estágio na editora da Rural, a EDUR. Nesse estágio, tive uma vivência do mercado editorial de publicação e ilustração. Anos depois, sendo aprovado como professor substituto no curso, eu queria fazer com os alunos um projeto semelhante ao que tive na EDUR, mas que fosse dentro da produção de HQs. Quando lecionei as disciplinas de histórias em quadrinhos, sugeri esse projeto para os alunos, e eles embarcaram”. Gabriel também deixou claro que, embora tenha sido o idealizador, exerceu um papel apenas como mediador, permitindo que os alunos desenvolvessem sua autonomia e capacidade de trabalhar coletivamente.
Pluralidade e diversidade
O nome do coletivo mostra-se apropriado: por meio de uma votação feita entre os alunos, foi escolhido o nome sugerido pela aluna Letícia Abrué, que teve a ideia pela rima visual (no logotipo, a letra P foi escorada no R para gerar uma leitura ambígua) e fonética entre “Plural” e “Rural”, além de o nome indicar a diversidade contida nas histórias do almanaque. Letícia é autora da obra “No Fundo do Céu”, na qual optou por uma experimentação com aguada de nanquim, já que a história tem como pano de fundo o mar. “Imaginei que utilizar uma técnica aguada poderia contribuir pra narrativa”, ela nos conta. “Apesar da atmosfera fantástica, “No Fundo do Céu” fala sobre os mistérios por trás de uma tradição e pelo encontro do homem consigo mesmo diante diante desse mistério; eu gostaria que essa história conversasse com pessoas que de alguma forma sentem que têm uma visão sagrada diante da vida”.
Letícia é natural de Itaguaí, e através da empresa em que trabalha, fez um convite para que participantes da Plural viessem apresentar suas respectivas histórias na cidade, numa oficina de quadrinhos realizada no Colégio Estadual José Maria de Brito. Nesta ocasião, membros do coletivo tiveram a ideia de doar exemplares para o município: “Criaturas Sobrenaturais” e “Sonhos e Pesadelos”, as duas edições da Plural lançadas até agora, encontram-se na Biblioteca Municipal Machado de Assis. A próxima edição já está sendo produzida, agora sob a supervisão do professor Dario ion Tuttolomondo, que tem a expectativa de que seja finalizada até o início de dezembro.

A importância da coletividade
Como não poderia ser diferente, a Plural é formada por pessoas negras, LGBTQIA+, neurodivergentes, suburbanos, homens, mulheres; e a diversidade se fez presente também nas histórias, com HQs de aventura, humor, terror, surrealistas, poético-filosóficas e muito mais. Mas como se dá essa pluralidade no âmbito criativo?
Letícia nos diz: “Estive na primeira Plural HQ, ouvi situações dos bastidores da segunda e posso afirmar que em ambas as edições houveram impasses entre os autores. Foram necessárias reuniões extensas para alinhar algumas ideias, e em todas elas as soluções partiram da aglutinação de duas ou mais sugestões dadas pelo grupo. Apesar do processo cansativo de produção e de resolução de divergências, ninguém saiu com inimizades. A divergência não é um oponente a ser combatido, é um obstáculo a ser superado com o devido respeito e diálogo.”
E se no âmbito de criação colaborativa as diferenças são inevitáveis, Letícia certamente não as vê como uma razão para dissuadir os artistas independentes de buscarem coletivos onde possam se fortalecer: “Hoje, mais do que nunca, vejo a coletividade como o caminho mais certeiro e enriquecedor de construir uma carreira no meio artístico, ainda mais no território da baixada. Tenho presenciado muitas parcerias surgindo e enxergo que algumas engrenagens se movem melhor quando pessoas que estão dispostas a fazer seu melhor se juntam pra caminhar na mesma direção. É recompensador aprender com o coletivo. O contato com o outro, o trabalho do outro nos faz enxergar novas possibilidades em nossa própria produção. Essa soma pra mim era só um conceito bonito, até eu vivenciá-la e enxergar os frutos reais disso.”

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