A Cia de Teatro Casa Verde, sediada em Itaguaí, completa dez anos de trajetória em 2025. Fundada em 2015, a companhia estreou em 2016 com o espetáculo Torturas de um Coração, de Ariano Suassuna, durante a mostra Rede Baixada em Cena, realizada na Biblioteca Parque. Desde então, o grupo se firmou como referência em teatro popular, com montagens que ocupam palcos tradicionais, praças e espaços públicos.
Ao longo da década, a Casa Verde acumulou prêmios e indicações em festivais dentro e fora do Rio de Janeiro. A companhia tem como marca a valorização da dramaturgia nacional, a proximidade com o público e a difusão cultural na Baixada Fluminense e na Costa Verde.
Destaques da companhia
O repertório inclui Lisbela e o Prisioneiro, adaptação da obra de Osman Lins que mistura romance e comédia, e Memórias Malcriadas, espetáculo infantil inspirado em Ruth Rocha. Este último, lançado em 2025, recebeu cinco indicações no 48º Festival de Teatro da FETAERJ, entre elas Melhor Atriz, Melhor Iluminação e Melhor Sonoplastia.
Nos festivais mineiros FETUBA, em Ubá, FACE, em Conselheiro Lafaiete, e Santa Cruz Encena, no Rio de Janeiro, a companhia conquistou troféus em categorias como melhor direção, atuação, cenário, figurino e melhor espetáculo pelo júri popular.
Para o diretor Alexandre Damascena, os números refletem a amplitude da atuação do grupo. “Nestes dez anos, além de Itaguaí, circulamos por cidades como Seropédica, Mangaratiba, Paraty, Nova Iguaçu, Maricá, Arraial do Cabo e Cabo Frio, além de festivais em Minas Gerais. Participamos de três edições da FETAERJ e de mostras no Rio e na Baixada. Esse movimento é fundamental para manter a companhia viva”, destacou.
Ele também apontou os principais obstáculos: “A grande dificuldade é a questão financeira. Nosso desafio é profissionalizar a produção para que o grupo consiga se manter. Muitas vezes precisamos sair de Itaguaí para apresentar e, mesmo assim, raramente conseguimos temporadas longas.”

Impacto cultural e novas gerações
O compromisso da Cia Casa Verde vai além dos palcos. “Nestes dez anos, inspiramos a formação e o retorno de outros grupos. Muitos alunos de teatro passaram a frequentar nossas atividades e alguns desejam integrar a companhia. Nosso último espetáculo foi dedicado às crianças justamente para formar o público do futuro”, afirmou Damascena.
Essa perspectiva também é reconhecida pela Rede Baixada em Cena, da qual a Casa Verde faz parte. “A rede é formada por muitos fios, e contar com o talento dos artistas da Cia Casa Verde fortalece o trabalho coletivo. Eles ampliam a presença do teatro fluminense, mostrando que existe vida cultural para além da capital”, disse Leandro Santana, representante da Rede.
Ele também ressaltou a relevância da conquista do Prêmio Shell de Teatro: “Ganhar o Shell ajudou a mostrar que existimos e resistimos. O teatro do Rio não é apenas carioca, é fluminense. Sem os coletivos da Baixada, do interior e da Costa Verde, o cenário não teria a mesma potência.”

Vozes do elenco
Para os atores da Cia, a trajetória da companhia também foi transformadora. A atriz Maria dos Remédios lembra que a experiência mudou seu olhar sobre a profissão: a Cia, segundo ela, trouxe “o conceito do fazer teatral responsável” e representou um divisor de águas em sua carreira.
Com passagens por praças, escolas e palcos, Maria ressalta a importância do contato direto com a comunidade. “Fazer teatro em espaços alternativos é cumprir o verdadeiro papel do artista: levar arte a quem precisa”, afirma. A atriz também cita personagens marcantes, como Manuela Flores, em “Torturas de um Coração”. Mas foi o monólogo “Não bata à porta” que lhe trouxe um aprendizado especial: “Ele me mostrou que só dependo de mim, do texto às emoções, e isso movimenta muita coisa dentro do artista.”
Thamyres Dutra, integrante do espetáculo “Memórias Malcriadas”, o mergulho no universo da escritora Ruth Rocha foi revelador. Ela destaca que a peça convida o público a refletir sobre a infância e a rebeldia como forma de transformação social. “Nossa companhia é muito preocupada com os direitos das crianças e adolescentes”, explica. A atriz lembra ainda que a obra critica padrões nocivos: “Vivemos em uma sociedade que negligencia os mais novos e os mais velhos, e que naturaliza comportamentos violentos como forma de educar.”
As duas atrizes também reforçam o protagonismo feminino na Cia. Para Thamyres, as indicações recebidas na FETAERJ, nas categorias de Atriz e Atriz Coadjuvante, mostram “a força e a qualidade do trabalho das mulheres de Itaguaí no cenário fluminense”.
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