Cinema é resistência e inclusão na periferia em Itaguaí

Longe dos holofotes, mas profundamente enraizados em seus bairros mais vulneráveis, os coletivos ÉduCação e Aquilombar emergem como pilares do cinema de resistência, usando o audiovisual como uma poderosa ferramenta de denúncia, memória e transformação social.

O coletivo Aquilombar, criado no final de 2019, por Thamyres Dutra, surgiu com o ideal de “descentralizar a cultura e valorizar o que é periférico e o que está à margem”, utilizando a arte como ferramenta para denunciar e produzir incidência política em relação às questões étnico-raciais e o apagamento histórico da periferia e dos quilombos de Itaguaí. 

O ÉduCação, por sua vez, complementa essa visão, atuando no bairro Cação. A região, que carece de equipamentos públicos, tornou-se uma referência descentralizada para a comunidade em diversas frentes, incluindo educação e assistência social. 

Esses grupos abraçam o conceito de “cinema de guerrilha”, onde a paixão e a necessidade superam a escassez de recursos. Gabriele Corrêa, conhecida como Oby, do ÉduCação, conta que muitas ações, como a primeira colônia de férias, foram bancadas com recursos próprios, fruto do “nosso próprio investimento”.

Superação para atuar nos bairros

Thamyres reforça que “boa parte do que é feito relacionado ao audiovisual em Itaguaí é porque a galera coloca o seu próprio investimento, coloca o seu próprio suor”. Mesmo com um projetor de R$200, um tecido branco pendurado na parede ou apenas um celular, eles provam que dá para “fazer acontecer mesmo, às vezes, não tendo tantos equipamentos”.

As iniciativas dos coletivos, como o Cine Itinerante e o Cine ÉduCação, têm o objetivo de fazer circular produções audiovisuais locais em colégios e espaços públicos. Essa ação leva o cinema para dentro de bairros mais precarizados e sem acesso a centros culturais. As produções abordam temas sensíveis e essenciais para a identidade local, como o movimento, estética e a violência de gênero.

O documentário “Por um Fio“, primeira produção audiovisual do Aquilombar, por exemplo, mergulha na relação de mulheres negras com tranças, autoestima e ancestralidade. Thamyres ainda narra a emoção de ver crianças se reconhecendo na tela: “Tia, olha minha mãe! (…) as crianças vendo a referência materna delas em uma produção audiovisual que tá circulando em Itaguaí inteiro”. 

Crianças posam diante de cartazes culturais no bairro Cação, onde os coletivos atuam com cinema de resistência e ações comunitárias (Foto: arquivo pessoal)

Relação com o público

O filme “Mulheres do Lambe”, produzido por Oby, que dá nome a outro coletivo em que faz parte, alerta para a violência de gênero no município. A produção ainda provoca no público uma euforia ao identificar locais e vivências familiares. Essa identificação é crucial: “as pessoas consomem o que elas se identificam. E se a gente produz, elas se identificam porque nós somos do mesmo território”, contou.

O impacto vai além dos números. Embora o Cine ÉduCação tenha alcançado mais de 170 pessoas em uma edição, e o Cine Itinerante circulado em mais de seis escolas, o verdadeiro sucesso reside na conexão. Thamyres descreve uma relação “afetuosa e qualitativa” com o público, formando uma comunidade onde se compartilha desde oportunidades de emprego até cuidados com as famílias. “O deu certo pra mim não é quando eu recebo a mensagem de a prestação de conta… mas é quando a galera se identifica… quando toca real no coração de alguém”, revela.  Oby ainda completa que o “espaço é um momento da gente dar um mínimo de empurrãozinho e tentar colocar ele [o morador] como protagonista”.

Atividade do Cine Itinerante leva produções audiovisuais locais para escolas e espaços públicos de Itaguaí (Foto: arquivo pessoal)

Para o futuro, os coletivos sonham em fortalecer redes com outros fazedores de cultura da Baixada Fluminense e Costa Verde, posicionando Itaguaí como um “território fértil”, que muitas vezes é excluído desses cenários. Thamyres expressa o desejo de ver “as empresas entendessem a importância de estarem mais próximas da gente… somarem com recursos, com trocas” para ampliar o alcance das denúncias e das narrativas locais. O grande objetivo, como resume Gabriele, é “valorizar as potências periféricas de Itaguaí”, mostrando que a cidade “não é só essa barbaridade toda que contam, não é só esse lugar perigoso violento”.

Ambas as ações não apenas preservam a memória do que já existe, mas constroem novos símbolos e a ideia de um futuro mais diverso e igualitário, ressignificando o estigma imposto a esses bairros. O cinema de resistência em Itaguaí é um grito potente que reafirma a vida, a identidade e a capacidade de transformar realidades com arte e coletividade.

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