Em meio a um cenário de vulnerabilidade social, marcado por pobreza estrutural, violência e escassez de equipamentos públicos, o bairro Jardim Weda, em Itaguaí, tornou-se palco do Cultura na Faixa. O projeto, uma parceria entre a ONG Se Essa Rua Fosse Minha (SER) e a Transpetro, aposta na cultura como ferramenta de transformação e dignidade social.
Cenário de vulnerabilidade
Antes da iniciativa, o Jardim Weda enfrentava graves problemas estruturais. Faltavam saneamento básico, praças, bibliotecas e centros culturais próximos à comunidade. Sem espaços de lazer, crianças improvisaram um campo de futebol na área dos dutos da Transpetro, único local recreativo disponível no bairro.
O território também sofria com violência e estigmatização, sendo frequentemente associado apenas à criminalidade, o que ampliava preconceitos e isolamento social. A pobreza é marcante. Duas em cada três famílias vivem do Bolsa Família. O valor médio de R$ 600 não garante condições dignas de sobrevivência.
As perspectivas de emprego e educação eram limitadas. Muitos jovens abandonaram os estudos cedo, especialmente mulheres negras chefes de família, responsáveis sozinhas pelos lares. Outro desafio era a ausência de políticas públicas de cultura e inclusão, agravando a desigualdade e a vulnerabilidade local.

Além do operacional
O Cultura na Faixa nasceu da necessidade de melhorar a convivência entre a Transpetro e a comunidade. Com o tempo, o projeto se ampliou. Tornou-se espaço de escuta, oficinas culturais, capacitações produtivas e convivência, valorizando o território e seus moradores.
Em entrevista exclusiva ao Jornal Atual, o coordenador do projeto, Geraldo Bastos, compartilhou que a proposta inclui oficinas culturais, capacitações produtivas e espaços de convivência. “O desenvolvimento comunitário se tornou propósito central, criando oportunidades, impulsionando sonhos, fortalecendo vínculos e combatendo estigmas”, disse.

Reflexo de desigualdade
Desde outubro de 2024, quando inaugurou a Casa do Cultura, o projeto recebeu 92 inscrições. O levantamento revelou um perfil marcado por desigualdade social. A maioria dos inscritos é jovem: 78,3% têm entre 6 e 16 anos. Quase 75% vivem no bairro há mais de cinco anos.
Entre os participantes, 87% se autodeclararam negros, sendo 55% pardos e 32% pretos. Mulheres são maioria: 66,3% das inscrições. Muitas delas chefiam lares sozinhas e encontram no projeto acolhimento, oportunidades e esperança em meio à vulnerabilidade.
A escolaridade é baixa. Cerca de 89% não concluíram a educação básica, e 12,3% das crianças sequer frequentam a escola. O projeto também garantiu inclusão. Pessoas com deficiência representam 8,7% dos inscritos, em sintonia com a Agenda 2030, ODS 10.

Ações de empoderamento local e impacto
As oficinas de Circo Social, Música/Folia de Reis, Trança Afro e Futebol mobilizaram jovens e famílias. A Trança Afro foi a mais procurada. Embora não seja focada na profissionalização, despertou vocações e fortaleceu a autoestima. Para muitas mulheres, tornou-se alternativa de empoderamento e possibilidade de renda.
A Casa do Cultura se consolidou como espaço de transformação. Promove autoestima, pertencimento e resistência ao estigma do bairro, além de abrir portas para novas oportunidades. O diferencial está na gestão participativa feita com os moradores. O projeto estimula o diálogo, resgata memórias e valoriza o protagonismo comunitário. “O acompanhamento socioeconômico e as parcerias locais ampliam o impacto e alinham as atividades às necessidades do território”, concluiu Bastos.
Expansão
O Cultura na Faixa avança para uma nova fase. A próxima comunidade atendida será o bairro Geneciano, em Nova Iguaçu, onde as inscrições já estão abertas.
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