O feito à mão faz parte da cultura brasileira. Do clássico “crochê da vovó” à arte da argila, o artesanato é passado de geração em geração. Em Itaguaí, o fomento da ocupação de artesão é constante e acontece por meio de feiras e eventos, no calçadão e no Parque Municipal, organizados pela própria prefeitura e pela cooperativa da cidade.
Ita Artes
A Feira Cultural de Itaguaí, organizada pela Ita Artes, promove, na primeira quinta-feira do mês, uma exposição de trabalhos artesanais no calçadão. Segundo a Secretaria de Cultura, a data é estratégica: a intenção é atrair potenciais clientes próximo do quinto dia útil – data de pagamento dos salários.
Atualmente, a Ita Artes tem aproximadamente 320 artesãos cadastrados. Desses, mais de 100 são ativos. Semanalmente, a feira de domingo conta com 16 barracas no Parque Municipal de Eventos. Já na exposição mensal de quinta, no calçadão de Itaguaí, esse número aumenta para 60.
As artesãs
Ana Tenchini tem 59 anos e é artesã há mais de 40: “Comecei porque o bichinho da criatividade me pegou”, diz. Para Ana, artesanato é vocação: com os anos de experiência, ela foi acumulando técnicas e desenvolvendo a criatividade. Hoje, produz de crochê a tricotin, de ponto cruz a vagonite, e até biju com fundo de lata de refrigerante. A compra da matéria-prima é feita dentro da cidade, girando a economia local. Seu trabalho é fonte de renda extra para sua família.
A maioria das vendas de Ana acontecem pela internet e por indicação. As exposições da Ita Artes ajudam a manter o contato com o público: é ali onde o cliente conhece os produtos e se encanta. Os eventos movimentam o calçadão de Itaguaí, que se torna vitrine e fortalece o marketing boca a boca: “é bom para mostrar nosso trabalho; precisamos do contato humano”.

Marina Xavier brincava com crochê desde a adolescência, mas foi em 2020, durante a pandemia, que a relação com o artesanato mudou. Marina conheceu o macramê, método de tecelagem com uso de nós, e começou a utilizá-lo para distração no pouco tempo livre que tinha. Em 2021, saiu do supermercado que trabalhava para se dedicar à confecção de peças artesanais.
Com 40 anos, Marina diz que começar a trabalhar com macramê significou qualidade de vida. Devido a jornada exaustiva no supermercado, ela abriu uma página no Instagram e começou a divulgar seus artesanatos. Com o tempo, passou a publicar seus trabalhos no TikTok e a vender pela Shopee e por um site próprio.
Para Marina, a Feira Cultural da Ita Artes ajuda a divulgar o trabalho artesanal e valoriza as artesãs da cidade, que conseguem mostrar um pouco de sua arte: “os eventos ajudam a vender, o que é de extrema importância para aqueles que têm o artesanato como renda”.
Profissionalização por artesanato
Geni Oliveira, de 62 anos, tem uma relação com artesanato que vem de longe: começou a bordar com 8 anos de idade, junto da mãe. Depois de se formar em administração e trabalhar anos em hospital, em 2014 o artesanato se tornou sua dedicação exclusiva. Em momentos de dificuldade financeira, o que salvou as contas da casa.
A moradora de Coroa Grande conta que participava de outras feiras antes da Ita Artes existir e que tem uma trajetória longa na Casa dos Artesãos de Itaguaí. Segundo Geni, a visão sobre o artesanato tem mudado com o passar dos anos, com o surgimento de iniciativas que visam profissionalizar a prática. Cursos gratuitos do SEBRAE, Porto Sudeste e Prefeitura fomentam o desenvolvimento das artistas.

Os eventos servem como mostruário de portfólio e são usados para a distribuição de cartões de visita. “Os clientes têm o hábito da encomenda. Por isso, não trabalho com estoque grande, já que pode não sair”, relata. Antes, a dificuldade para se encontrar matéria-prima era enorme. Geni conta que, para comprar as mercadorias, era necessário ir a Santa Cruz, Campo Grande, Madureira ou ao Centro do Rio: “a gente desejava lojas de armarinho em Itaguaí”. Hoje, os insumos se tornaram mais acessíveis, com lojas dentro da cidade. Porém, Geni aponta: os lojistas precisam de mais visão.
A artesã faz questão de citar o lado mais comunitário dos eventos: “a feira é gostosa, com música ao vivo. Ajuda emocionalmente. O contato com as meninas é muito grande. A gente se diverte”. É ali onde elas trocam dicas, compartilham fornecedores e criam laços. “Nosso maior prazer é quando o cliente se encanta com o nosso produto e isso se converte numa venda”, completa.
Cooperativa
Cristiane Serafim é diretora da CAMIAC – Cooperativa de Artesãos do Município de Itaguaí Arte e Cultura. As feiras acontecem duas vezes no mês, às sextas-feiras. Fundada em 2019, a organização busca profissionalizar e oportunizar as artesãs da cidade. Antes da cooperativa, as artesãs se reuniam apenas uma vez ao ano, durante a Expo, o que dava uma sensação de isolamento.
Após a fundação, a pandemia foi um baque, mas a cooperativa logo encontrou uma alternativa: confeccionar máscaras de algodão. Isso deu uma sobrevida aos artistas durante um dos períodos mais difíceis do século. Pós-covid, os desafios de visibilidade se apresentaram mais uma vez: dificuldade de precificar, de ser visto.

A cooperativa, então, buscou credibilizar-se: as artesãs selecionadas são todas do município de Itaguaí e precisam passar por uma curadoria das peças que produzem. Hoje, são 50 artesãs cadastradas, com planos de abrir mais vagas.
Uma das ferramentas mais importantes do trabalho é a Carteira Nacional do Artesão: com o cadastro, feito através da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, há mais chances de participar de feiras e editais. Além dos direitos do trabalhador, o registro também ajuda a cooperativa a mapear as habilidades de cada artista, direcionando-os a oportunidades de trabalho e editais de fomento.
Para a diretora Cristiane, a carteira nacional é o símbolo da profissão: “com ela, temos mais chances de estar em feiras e editais, de ter nosso trabalho visto e conseguir vender nossa arte para fora do estado e fora do país. Já tivemos produtos vendidos em Minas Gerais, em Portugal, por exemplo”, aponta.
Leia mais: BikeCine estreia em Seropédica com sessões gratuitas ao ar livre