Itaguaí rende tributo a quem, com cores e traços, vem escrevendo uma história paralela à de suas ruas. Haroldo Hum e Rodrigo Mica são mais que grafiteiros: são cronistas visuais que, desde o final dos anos 1990, transformam muros em manifestos e esquinas em galerias a céu aberto. Nascidos e criados em territórios onde a arte costuma chegar por último, eles a colocaram na linha de frente, levando o grafite de Itaguai a dialogar com outras cidades, outros estados e outros países. Para eles, pintar não é apenas criar: e resistir, educar e inspirar.
Para Mica, o grafite foi divisor de águas. “O grafite salvou minha vida, porque me apresentou muitas pessoas além desse universo”, conta. Ele lembra que a arte ampliou sua visão de mundo, o levou a outros estados e lhe permitiu conhecer artistas de diferentes países, criando um diálogo global. “Mesmo sendo uma cultura periférica, ela se conecta com as periferias do mundo inteiro”, afirma. Seu início foi humilde, com “uns sprayers e muita coragem para viver a jornada.
Arte com responsabilidade social
O trabalho da dupla vai muito além da estética. Eles levam o grafite para dentro das comunidades, adaptando a arte à realidade de cada bairro. “A realidade da molecada é diferente em cada lugar”, destacam. A maior recompensa, dizem, vem do reconhecimento dos próprios moradores. Haroldo ressalta que, ao apresentar o trabalho a crianças e adolescentes, o objetivo não é apenas ensinar técnica, mas incentivar cidadania.
Mesmo que a criança não tenha habilidade para desenhar, explica Haroldo, ela terá como exemplo alguém da mesma realidade, mas com outra perspectiva de vida. Rodrigo complementa: “Queremos mostrar novas possibilidades para jovens que vivem sob situações de risco”.

Intercâmbio e alcance internacional
Além do trabalho local, Mica e Hum promovem intercâmbio entre coletivos e artistas, trazendo para Itaguaí nomes de Milão, Brasília, México e Nordeste do Brasil. Ainda participaram de todas as edições do Meeting of Favela (MOF), considerado o maior evento de grafite do mundo, que reúne cerca de 800 grafiteiros.
A escala de seus trabalhos, por exemplo, já atingiu 480m², o maior painel que pintaram juntos, realizado na Copa Grafite de 2012, no Engenho da Rainha, no Rio de Janeiro. Em Itaguaí, pintaram um painel de 148m², no Instituto Casa do Pai, popularmente conhecido com “CSU”.

A arte como conexão
Mesmo com a constante falta de apoio do poder público, a motivação para continuar produzindo é a conexão com a população. A arte deles não defende uma ideologia política, mas busca gerar “um agrado, um sorriso” nas pessoas. Haroldo descreve o grafite como “uma cultura que te obriga a estudar, se obriga a pesquisar, se interagir”, fomentando o conhecimento de forma acessível. Os painéis, muitas vezes, trazem temáticas educativas sobre fauna e flora locais, ou a própria história da cidade.
O sonho dos artistas é transformar Itaguaí em uma “galeria a céu aberto”, onde a arte urbana seja acessível e reconhecida como uma poderosa ferramenta de transformação social. Esse mesmo olhar para o futuro, traz grandes esperanças para a cultura hip-hop no município. Eles desejam que seja “respeitada como uma arte forte dentro do município porque é forte e educadora”.
Para ele, a chave é a “valorização”. E esperam que, num curto espaço de tempo, o olhar seja de respeito, contou Mica finalizando com um convite “sentem com a gente, nos ouçam e enxerguem a possibilidade desses dos artistas locais estarem fazendo os projetos”. Eles reforçam que a cultura é um “degrau de cada vez”, e eles são elementos que ajudam a construir e fortificar esse legado dentro e fora da cidade.
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