Não é nova a situação de igrejas, que, mesmo históricas, desabaram em cidades brasileiras, em alguns casos provocando até vítimas fatais. Não raro, nesses casos, autoridades de diferentes níveis de poder e representantes de entidades a elas vinculadas têm um discurso pronto. Manifestam pesar em casos em que há mortes, lamentam o ocorrido e até acrescentam que estão à disposição para colaborar com as investigações sobre as causas do ocorrido.
No caso dos citados acontecimentos, verdadeiras tragédias anunciadas, personagens envolvidos também juram adotar as medidas necessárias para a preservação e restauração dos patrimônios históricos e culturais total ou parcialmente destruídos. São igualmente zelosos em acentuar providências que dizem ter tomado, mas que se fossem verdadeiramente reais, não ocasionariam esses recorrentes acidentes, que não apenas trazem prejuízos materiais como ainda comprometem patrimônios de significativa relevância histórica para as comunidades em que estão localizados. Há que acrescentar ainda o abalo sentimental dos moradores dessas localidades, uma vez que uma memória efetiva cuida de conectá-los a tais templos.
Essas tristes realidades, de tragédias anunciadas em igrejas país afora, repete-se na Ilha da Madeira, em Itaguaí, onde a Igreja São Pedro apresenta problemas que, se não forem sanados, podem ocasionar o seu desmoronamento a qualquer momento. A capela está fechada sem acesso ao público por conta dos diversos problemas, incluindo o comprometimento do telhado.

Tentativas sem êxito
A Associação de Pescadores, Maricultores, Agricultores e Táxi Boats de Itaguaí (APMATRJ), uma das entidades do gênero com atuação na região, informou ao Atual que até tentou uma mobilização para conseguir viabilizar um projeto de reforma. “Tentamos contato com todos da cidade para tentar resolver. Já pedimos ajuda à Prefeitura de Itaguaí”, disse o presidente da APMATRJ, Edson Correia da Silva, conhecido como Dinho da Pesca. Segundo ele, outra linha de ação foi a tentativa de levantar recursos através de doações populares e de empresas para tentar concertar o telhado, o que, no entanto, não surtiu o efeito desejado.

Documento relata precariedades
No documento a que a APMATRJ se refere, há denúncias de que a igreja está em risco de desabar. Relata ainda que o teto da nave está com o madeiramento podre, tomado por cupins em grande parte. Ainda segundo o texto, o madeiramento está escorado de forma preventiva para evitar o desabamento por completo do teto e telhado. “Ressaltamos que São Pedro é o santo padroeiro dos pescadores. Alertamos para uma possível tragédia anunciada que possa atingir alguma pessoa colocando em risco sua integridade física e até algo pior”, alerta Dinho da Pesca.
Dinho ainda insistiu. “Eu encaminhei um ofício ao atual prefeito, Dr. Rubão, à Secretaria de Obras e Conservação e à Secretaria de Ordem Pública, mas ainda não tivemos nenhuma nota de retorno”, concluiu Dinho da Pesca. O Atual entrou em contato com a Prefeitura de Itaguaí para saber se efetivamente houve o contato, e se seria possível alguma providência, mas até o fechamento dessa edição não obteve qualquer resposta.

Contato iniciado e missas na sede da Aplim
Responsável pela igreja, Solange Lopes confirmou ao Atual que chegou a falar com o então prefeito interino, Haroldo Jesus sobre um pedido de ajuda. Ele, no entanto, informou que, de acordo com a legislação em vigor, a prefeitura não tem como investir recursos nas reformas. No entanto, Haroldinho prometeu ajudar fazendo contato com empresas particulares numa campanha pela reforma. O então interino chegou a enviar um emissário para conhecer a situação da capela, mas as injunções políticas acabaram por prejudicar a continuidade do esforço. Diante do impasse, as missas mensais foram transferidas para a na sede da Associação dos Pescadores e Lavradores da Ilha da Madeira.

Bem não é tombado, diz Iphan
Outro caminho para a reforma seria a intervenção do Instituto do Patrimônio Artístico Histórico Nacional (Iphan). Essa autarquia federal tem entre suas atribuições o restauro de bens tombados. Isso após um processo que envolve diversas etapas e pode ter o envolvimento de outras esferas de governo e financiamento. O órgão fiscaliza o estado dos imóveis, aprova os projetos de restauração e busca financiamento quando necessário. Também supervisiona a execução das obras para garantir sua realização de acordo com as diretrizes técnicas, preservando o valor cultural e histórico do bem. O Atual também entrou em contato com o Iphan para saber sobre essa possibilidade. A Coordenação-Geral de Comunicação Institucional do órgão informou que a igreja São Pedro não é alvo de tombamento pelo Iphan, o que inviabiliza as referidas providências.
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